São cada vez mais as pessoas que me dizem que passaram de consumidores de carne e peixe para uma dieta mais virada para a quase ausência destas proteínas. Ou que se tornaram vegetarianos ou ovo-lacto-vegetarianos. Ou Vegan. Ou isso. E cada vez mais jovens vegetarianos desde quase sempre. Seja o que for, o denominador comum é a ausência, ou quase, de carne ou peixe.

Por razões que se prendem com a saúde e o bem-estar do seu corpo e mente, ou por razões que se prendem com as várias barbáries da produção animal para consumo humano, o ambiente ou as alterações climáticas. Seja como for, a tendência é crescente e pode ver-se, é palpável. Francamente admirado, faz-me acreditar que afinal, mesmo que muito lentamente, é possível mudar alguma coisa para melhor neste mundo louco em que vivemos e destruímos. Quem diria, há uns 20 ou 25 anos atrás que atingiríamos números significativos e palpáveis de pessoas de todas as idades que quiseram mudar de facto os seus hábitos alimentares? Especialmente no que diz respeito a deixar de comer carne e peixe, ou a baixar drasticamente o seu consumo. Num país como o nosso, onde culturalmente todas as refeições maiores do dia contêm obrigatoriamente carne ou peixe, ou os dois. Esta cultura aparece directamente relacionada com os tempos em que a maioria da população não tinha acesso a quase nenhuma carne ou peixe e que, comer uma coisa ou outra à vontade, era sinal social de abundância, importância e riqueza. Hoje em dia, não comer peixe ou carne, é visto não como “coitados dos pobrezinhos”, mas sim como um sinal de cultura global, inteligência, consciência e preocupação, altruísmo e respeito pelo planeta e pelos que nele vivem. 

Sabemos que podemos consumir proteínas de outros alimentos, como os cogumelos ou as leguminosas. Mas estas são proteínas vegetais. Não são a mesma coisa que as animais. Outros vão buscar a proteína animal aos ovos e lácteos. Mas os lácteos em quantidade são tudo menos bons para a saúde. Claro que é possível viver bem sem a proteína animal. A prova disso é que a ausência do consumo desta proteína em cada vez mais gente no mundo não causa mais doentes por isso. Nem os milhões de vegetarianos, em países como a Índia, têm problemas de saúde identificados com o facto de o serem. Diz-nos a ciência que precisamos de proteína animal. Mas cada vez há mais gente a não a consumir e que dizem sentir-se melhor. Então em que ficamos?

A Medicina Chinesa defende que se deve comer de tudo e não abusar de nada. Basicamente. Consoante o tipo de cada indivíduo, este deve comer mais disto e evitar daquilo, mas comer de tudo e não abusar de nada continua a ser a base filosófica desta dieta. A minha avó dizia o mesmo. Mas os hábitos mudaram e passámos todos a comer mais proteína animal do que tudo o resto. Se dantes se comia meio pão de quilo com um pedaço de chouriço, a tendência contemporânea no nosso primeiro mundo manda comer um chouriço com um naco de pão. Da mesma forma, as caldeiradas passaram a ter mais peixe que batatas, os arrozes mais lulas ou frango do que arroz, o cabrito servido com umas poucas batatinhas novas, em vez de batata assada no forno com arroz de pingo. Talvez fosse bom que, pelo menos, voltássemos a um melhor equilíbrio.

Não pretendo convencer quem quer que seja para se tornar vegetariano, ou ovo-lacto ou vegan ou o que seja. Mas talvez alertar para um bom senso que nos faça bem e que ajude um pouco este mundo de onde fazemos parte. Comer menos carne e peixe é urgente para todos. Tanto como responder de vez às alterações climáticas, poupar água, defender os oceanos, ou tantas outras coisas…

Talvez o mais acertado seja tornarmo-nos vegetarianos. Talvez o mais equilibrado seja tornarmo-nos ovo-lacto-vegetarianos, talvez o mais possível seja comermos só um niquinho de carne ou peixe e nem a todas as refeições.  

Comer menos carne e peixe não custa nada, é só uma questão de disciplina. E equilíbrio. Como dizia a minha avó. E a Medicina Chinesa, que tem mais anos do que a minha avó.