Os gatos também envelhecem

Fui visitar outra vez os meus gatos. Ou melhor, os meus antigos gatos, que vivem noutra casa, desde que me separei da sua dona. Terão agora perto dos 18 anos, cada um deles. O tempo passa e nós não damos por ele. Eles continuam amarelos porque sempre o foram e eu passei a ser grisalho em vez do forte cabelo castanho-escuro aos caracóis. Eles ficaram com os olhos mais pequeninos e baços, o pêlo mais seco, áspero e desgrenhado, eu fiquei com rugas e os olhos mais papudos. Mas a verdade é que eles são muito mais velhos do que eu. Há uns tempos que não ia visitá-los. 

O Malaquias foi receber-me à porta, simpático como sempre, os olhos pequenos e sorridentes, no meio daquele pêlo todo que, apesar de velho, continua farto e comprido. Fez-me uma festa, entre ronrons e marradinhas a pedir atenção. A Salomé estava deitada em cima de uma cadeira com almofadas, enrolada numa mantita. Tinha o olhar no vazio. Lá olhou para mim devagar. Sentei-me ao seu lado num banco baixo. Largou um miado fraco, saiu debaixo da mantita, pôs-se de pé a custo e veio para o meu colo. Quis deitar-se, depois olhava para mim, miava, levantava-se outra vez, pedia festas, miava, não conseguia sossegar. Deitou-se e aí ficou um bocado. Depois levantou-se outra vez a custo e foi para a sua cadeira. Fiz-lhe mais festas. Cada vez que parava ela miava a pedir mais. Até que, cansada, lá deitou a cabeça e aí ficou, à espera que eu a tapasse com a mantita. A Margarida estava ausente. Não a vi desta vez. Não se deu ao trabalho de vir ver quem eu era.

Fui informado de que o Malaquias esteve muito mal com uma pancreatite. Deixou de comer, foi tratado e alimentado à força. Agora já come. A Salomé esteve muito mal com várias coisas e já não quer comer há muito tempo. É alimentada com a ajuda de uma seringa sem agulha na boca, todos os dias. Já da última vez que os tinha visitado tinha gracejado, dizendo “Mas tu não os deixas morrer? Eles têm de ir qualquer dia…”. Desta vez acabei por ter uma conversa franca. Foi discutida a morte nos animais de estimação, daqueles, particularmente. 

Deve ou não obrigar-se um animal a viver, mesmo que contra a sua vontade? Como definimos onde fica a fronteira do bem-estar e qualidade de vida necessários para que o animal viva de facto em vez de somente sobreviver? E, sendo eles animais de estimação ou de companhia, até que ponto entra em linha de conta para essa decisão o egoísmo de os querermos para sempre ou, pelo menos, o maior tempo que for possível? A resposta que me foi dada foi: “Eles são a minha companhia…” 

Esta resposta pressupõe, obviamente, que haja suficiente qualidade de vida nos animais para que eles sejam mantidos vivos e lhe façam companhia, mas a verdade é que não sabemos definir a qualidade de vida naquele finzinho de vida. Pode dizer-se que, se não houver sofrimento, há qualidade de vida e portanto condições para serem mantidos vivos mas também podemos perguntar-nos se, ao serem mantidos vivos, não lhes baixamos a qualidade de vida e portanto induzimos sofrimento. 

Obrigar um gato a comer quando está doente e por um período de tempo curto será certamente defensável mas sê-lo-á quando o processo se torna crónico? Um gato com perto de 20 anos é como um humano com quase 100. Será natural que sofra, como o humano, de muitas das doenças típicas geriátricas. De doença reumática a demência, passando por frio endógeno, o pobre gato pode sofrer mais do que estar bem. Eles já dormem muito quando são jovens e adultos, mas quando chegam a velhos é o que sobretudo querem fazer. Conheci uma gata com 21 anos que tinha de ser arrancada ao roupeiro, onde vivia escondida da luz e do ruído, para ser alimentada… à força, claro.

Não sei onde está a fronteira do bem-estar e da qualidade de vida. Não sei se quando se decide obrigar a viver ou simplesmente deixar ir e que se cumpra o destino final natural. Não sei quando se deve deixar que a doença finalmente ganhe à vida, mas porque não sei onde acaba a vida e começa a morte que a doença transporta. Não sei para os gatos, não sei para os humanos, não o sei para mim.

Mas sei que esta decisão não pode repousar no meu querer os meus animais para o meu bem-estar, ou para mitigar a minha solidão, ou porque não me posso separar deles, ou porque não quero sofrer com a sua ausência. Transferimos para os animais de estimação e companhia o terror humano de ficar sozinhos, abandonados, carentes. Transferimos o nosso amor por eles para a impossibilidade de nos vermos sem eles, sacrificamo-los a uma falsa eternidade para nos preencher o vazio do vazio do que não é mais. Controlar o seu sofrimento passa a ser o nosso dia-a-dia, a nossa tarefa, o nosso objectivo, acrescentando no entanto outros sofrimentos para atingir o tal limiar de bem-estar e qualidade de vida que nos permite continuar a mantê-los vivos mesmo que obrigados.

Tudo se esgota. E as fronteiras acabam por nunca ter existido. Por isso todos os casos e todas as histórias serão sempre diferentes. Para umas pessoas o seu animal de estimação ou de companhia terá de existir enquanto for possível fazê-lo existir. Para outras o seu animal de estimação ou de companhia esgotar-se-á no momento em que lhe vir sofrimento desnecessário e o compreender como desnecessário.

A medicina tenta empurrar essas fronteiras desfocadas cada vez mais para a frente mas a verdade é que, fronteiras ou não, continuam desfocadas. A decisão de prolongar uma vida pode ser tão difícil como acabar com uma vida. Nos humanos essa decisão compete ao próprio doente, à sua família ou, em última análise ao pessoal hospitalar.

 Num animal de estimação ou de companhia a decisão compete exclusivamente ao dono ou, a seguir, ao veterinário.