Dormir é bom. Serve para que o corpo recupere do desgaste que tivemos nas actividades do dia, sonhamos para “limpar” o lado emocional, arrumar a memória, o processamento de dados, os tecidos reconstituem-se, a energia repõe-se. E é boa, aquela modorra quando estamos entre cá e lá e nos apetece dormir mais um bocadinho e podemos dormir mais um bocadinho.

O calorzinho conservado pelas cobertas aconchega-nos em escuros confortáveis e não queremos saber do mundo naqueles momentos. Tornamos a adormecer. Mergulhamos nessa escuridão agradável e inconsciente, como se fosse um ambiente uterino de que tivéssemos sempre memória. O nosso corpo continua activo. Ouve, cheira, sente frio, calor, dor, na mesma, mas não damos por isso. É como se estivéssemos apagados por um momento, desligados da realidade do mundo e ligados a uma outra realidade que só existe dentro de nós. Depois, ao acordar, ligamos outra vez ao sistema e passamos a partilhar a realidade de toda a gente no mundo em que vivemos. Muitas vezes preferimos o mundo dos sonhos do que o mundo das realidades. De outras vezes sonhamos com as realidades do mundo.

Há quem considere o período de sono uma perda de tempo. Um desperdício no tempo de vida que temos e gastamos. Talvez. Queríamos viver sempre, em todo o tempo, em constante frenesim, fazendo mais e mais coisas, produzindo, tirando prazeres. Mas dormir é um prazer, e é a busca de prazer que faz o ser humano viver e que o norteia. Por isso não estou de acordo com os que defendem que dormir é um desperdício. Pelo contrário, penso que, para além de ser muito necessário, é o dormir que nos dá o prazer da vida. Experimentamos prazer quando dormimos bem, e é isso que nos prepara para os prazeres que experimentaremos no período de vigília, enquanto estamos acordados. Se não tivermos dormido bem não estaremos com as funções em pleno e por isso não conseguiremos viver bem ou aproveitar bem a vigília. 

Todas as coisas têm o seu contrário e sem o seu contrário não poderiam ser essa coisa. Este princípio universal também está impresso no nosso dormir, claro. Vigília e sono sucedem-se continuamente, como o dia e a noite, o Verão e Inverno ou a vida e a morte. Neles estão contidos os segredos e leis do Universo. E nós somos feitos disso. 

Quando não dormimos bem, quando sonhamos a mais, quando acordamos cansados, quando não conseguimos adormecer ou sair do sono, quando o sono não é sono reparador a vida desequilibra-se e podemos ter todo o tipo de problemas. Físicos, mentais, emocionais, de trabalho, de acidentes, de humor, de escolhas. O dormir pode eventualmente ser um desperdício de tempo, como defendem alguns, mas seguramente é fundamental para o nosso equilíbrio de saúde. E, para além de tudo, dormir bem é muito bom, sabe bem, dá-nos prazer e isso é um dos fundamentos da vida. 

Na Medicina Chinesa, qualquer desequilíbrio do sono é considerado como insónia. Não conseguir adormecer rapidamente quando se vai para a cama, acordar a meio da noite, sonhar muito, ter pesadelos recorrentes, acordar cansado, sono agitado, ranger os dentes, falar a dormir, sonambulismo, ter muito sono durante o dia, adormecer pelos cantos… Os sintomas associados podem ser muitos. Confusão, mau humor, emotividade lábil, depressão, indecisão, dificuldade de raciocínio, alterações de visão, dor de cabeça, falta de líbido, zumbidos nos ouvidos, vertigens, tremuras…

Temos de dormir. Naturalmente bem. 

Se não está a dormir assim, venha tratar disso connosco. E equilibrar o que está desequilibrado.