Tudo na nossa vida tem de ter uma razão. Ensinaram-nos assim. Escolho este curso porque me dá mais saída profissional, vou morar para aquele bairro porque é perto de tudo ou porque tenho lá amigos, compro o carro x porque tem espaço e potência, vou àquele restaurante porque tem o melhor cozido à portuguesa. “Porque”, é a palavra que nos rege as escolhas. 

Mas também é verdade que a vida ela própria, pelo menos nos mamíferos, é regida pela busca de prazer. Alimentação, reprodução, sobrevivência, estão intimamente ligadas a mecanismos de prazer e recompensa. Comemos para nos satisfazermos e saboreamos os sabores que mais gostamos, tiramos o maior prazer do sexo, experimentando e partilhando, mesmo que nos enchamos de culpas, dadas pela educação, pela religião, ou pelo auto-controlo, sobrevivemos melhor em ambientes que nos sejam agradáveis, ou seja, melhor nas cidades do que na selva, melhor no colchão do que na enxerga no chão.

Essa busca de prazer é inata, não depende do nosso pensamento, não escolhemos, a escolha já está feita à partida. 

No meio destas duas coisas, razão e impulso de prazer, há todo um mundo, claro. E muitas vezes nos baralhamos nele. Entre o impulso da busca de prazer, e a razão pura e dura dos variadíssimos “porquês” na nossa vida, há razões que justificam os prazeres e prazeres que justificam as razões. Ou que os inibem.

Por isso se compra o carro que “não preciso de todo esse espaço que o carro tem, mas gosto mesmo do design, e o motor não é nada mau”, ou “é o melhor cozido à portuguesa da cidade, mas o dono é antipático e paga mal aos empregados”. Ou ainda “o bairro é muito central, mas não gosto nada dos vizinhos”. Todos os dias temos ambos os lados, emocional e racional, que se completam ou antagonizam. E as nossas escolhas são feitas disso mesmo.

De umas vezes teremos de ser mais racionais, mas de outras deveremos ser mais emocionais. Perguntar o porquê de uma coisa que me apetece e que me dá prazer pode acabar com esse prazer e, nesse caso, o porquê mata o prazer. Da mesma forma, justificar uma razão com um “porque me apetece” não a justifica. 

Umas vezes isto, outras aquilo, a vida é feita de emoções e de razões. Umas vezes misturam-se, de outras não se devem misturar. 

A fantástica beleza na nossa complexidade.