As memórias fazem parte de nós e constituem-nos. É porque elas existem em nós que somos como somos. Memórias de infância moldam-nos a educação, memórias de traumas ou frustrações moldam-nos estratégias, memórias de pessoas moldam-nos emoções. Sem elas não seríamos o que somos nem poderíamos viver em sociedade. 

Mas também é verdade que as memórias nos podem trazer dor, saudade ou tristeza. E, nesse caso, podem ser destrutivas. Ora, se dependemos das memórias para sermos o que somos e vivermos como vivemos, mas se por vezes sofremos com elas, como lidar então com tudo isso?

Num doente com demência as memórias vão e vêm, nem sempre se articulando, antes existindo em momentos mais ou menos fugazes, como se a realidade deixasse de o ser, como se a vida inteira se lhes fugisse, para aparecer em pequenos pedaços de sonhos. Estes pedaços de memória podem devolver por momentos a sua vida ou trazer-lhe antes angústia, confusão, sofrimento. 

Felizmente, a maior parte de nós não sofre de demência e, por isso, não vive as memórias assim. No entanto há algumas que nos assaltam por vezes e que, também a nós, causam angústia, confusão, sofrimento. 

Há vezes em que, sem mais nem porquê, me lembro de alguém que já não está a meu lado. Ou porque morreu ou porque a vida nos tivesse afastado. Resta a memória de momentos, coisas ou tempos que vivemos, histórias em comum, o que trocámos o que amámos. E, dentro de todas as coisas boas que as memórias me trazem, sinto tristeza e saudade porque as memórias não me trazem a pessoa em questão nem esses momentos de volta. Causam-me então angústia, confusão e sofrimento, apesar de serem boas memórias e essencial passado para o meu presente. A gestão das duas partes é feita do equilíbrio que consigo entre tudo o que me lembro de bom e fantástico que aconteceu, e a ausência vazia imposta pela perda.  

Depois penso nos doentes com demência. imagino-me um dia com o mesmo problema, com as memórias cada vez menos nítidas, em pedaços fugazes, sem poder saber o que é passado ou presente. E isso dá-me a resposta. Tento lembrar-me do que foi bom, importante, sabendo que isso é passado, arrumando tudo no seu lugar de outrora, talvez inventando realidades que nunca existiram a não ser nas minhas memórias. E coloco esse passado no meu presente, arrumado, defendido assim, evitando o vazio.

Na perspectiva da Medicina Chinesa a memória depende de uma série de coisas em que pode ser ajudada. Não se conseguem recuperar demências, claro, mas consegue-se ajudar a conservar as memórias, desacelerar problemas neurológicos degenerativos, ajudar a memória do dia-a-dia, o cansaço mental. 

Porque as memórias são imprescindíveis.