Um dia reparei que um dos cafés do meu bairro estava diferente. Quase igual, mas diferente. Tinha umas coisas diferentes na vitrine, uns menus manhosos com umas fotografias de comida chinesa. Os donos agora eram uma família de chineses. Ou melhor, alugaram o café. Deixaram-no exactamente como estava e vendiam as mesmas coisas. Os cafezinhos, os croissants de padaria, os copos de vinho, os bolos de arroz, as minis e os rissóis. E por isso continuavam a servir os habitués do bairro. 

Mas tinham também em oferta os tais menus de comida chinesa. Um dia parei por lá e decidi-me a provar qualquer coisa, para ver como seria. Pedi uma sopa de guiosas com algas. O senhor foi para a cozinha e a senhora foi-me servindo uma cerveja. Provei a sopa. Deliciosa!

Durante algum tempo antes da pandemia e até há bem pouco, fui a esse pequeno café amiúde, comer de tudo o que estava no tal menu manhoso. As refeições eram baratas e foi da melhor comida chinesa que já comi na minha vida. Tudo cozinhado na hora. A família era muito simpática e era um prazer estar ali. Para além disso tinham cuidado com as máscaras e as higienes, o que me dava tranquilidade, em tempos em que o que se via mais em plena pandemia era pessoal dos restaurantes com a máscara nos queixos e a deitar alegremente perdigotos em cima de toda a comida que faziam ou serviam. 

Levei lá alguns amigos. Os que tiveram a sorte de conhecer o cafezito dos chineses, como era conhecido no bairro, concordaram todos ser da melhor comida chinesa que lhes tinha passado pelo estreito. Com o andar da pandemia os meus amigos chineses do café foram-se queixando de que o negócio estava mal, que o senhorio mantinha a renda alta. Incentivei mais amigos a lá irem, a ver se ajudávamos a manter aquilo aberto. 

Um dia, no final de Julho, passei por lá e deparei com a porta fechada. Nunca mais se abriu. A família tinha simplesmente fechado o café e andado. Não havia um papel com um contacto, uma nova direcção, um “fomos de férias”, nada. Perguntei nas lojas ao lado, se sabiam o que tinha acontecido. Ninguém sabia de nada. Quase sem esperança, pergunto-me se terão fechado de vez ou se, pura e simplesmente, foram de férias e não puseram lá papelinho nenhum, ao contrário do que qualquer português faz. Pode ser que ainda abram a partir de Setembro, quem sabe?

Vi, numa esplanada de um café ao lado, um senhor que costumava frequentar o café dos chineses. Fui-lhe perguntar se sabia de alguma coisa. “Foram para a China”, disse-me com aquele ar de gozo bacoco e parvo do Zé Povo que se está nas tintas. Lembrei-me de que aquele velhote consumia no café dos chineses a mesma coisa que consumiria noutro qualquer: um café durante a tarde inteira. 

Um outro velhote amigo deste, da mesma laia, atira “Deviam ir mas era todos, lá para a China, esses gajos!”.

Não lhe respondi nem lhe liguei. Agradeci ao velhote que tinha interpelado e fui-me embora, triste com aquilo. Provavelmente, aquela família chinesa contribuiu mais para o Estado português do que a maior parte dos cafés das redondezas. Sempre os vi a registar e entregar talão aos clientes, depois de perguntar se queriam número de contribuinte. Sempre foram simpáticos, integrados, prestáveis, com o filho com amigos portugueses. O senhor que disse com ar de gozo que tinham ido para a China era o mesmo que eu via ser servido atenciosamente todos os dias na esplanada “dos chineses”.

Perguntei-me o que pode justificar esta xenofobia ou racismo ou lá o que é isto, tão irracional, tão visceral. Às vezes não gosto das pessoas do meu bairro.